sábado, 10 de dezembro de 2011

A Arte do Diagnóstico

A Medicina é a ciência em que coloco a maior esperança para um futuro próximo. Os avanços que estamos tendo conhecimento quanto a novos tratamento de doenças e novas tecnologias é impressionante!

Mas enquanto a medicina é ciência pura na área da pesquisa, no outro extremo dessa cadeia, no atendimento inicial ao paciente, essa ciência toma característica de uma arte. Isso porque quando você vai ser atendido por um médico, ele não tem um procedimento padrão a seguir para te diagnosticar corretamente na primeira vez e sem perder tempo. Cada médico segue seu procedimento pessoal baseado na sua experiência, e na sua área de especialização. E se isso é possível na prática, é porque o ato de diagnósticar não está equacionado e padronizado como seria em outras ciências como física, matemática, química e etc.. 

Não estou dizendo que isso é certo ou errado, só apontando o fato! Particularmente acho que o ser humano é tão complexo que nunca haverá um procedimento padrão ou uma "equação de diagnóstico" onde você entra com os sintomas e sai o nome da enfermidade com o remédio que soluciona o problema. Os indivíduos são muito particulares e os sintomas de alguma doença podem no máximo ser generalizados, mas sempre vai existir uma minoria que não vai apresentar os sintomas do "livro".

O texto abaixo é um relato de uma situação que aconteceu comigo no último mês, e que foi a motivação para escrever este post.


Há algum tempo comecei a sentir um leve incômodo muscular em cima da última costela direita. Era bem discreta a ponto de incomodar, mas você imagina que foi algum mal jeito e deixa pra lá. Só que depois de uma semana o incômodo virou dor e decidi ir no médico. Como era sábado, deixei para procurar um médico na segunda. Na segunda foi aquela correria no serviço ficou pra terça, mas naquela noite a dor ficou insuportável! Doía muito! E agora se estendia até as costas. Sem dúvida não dava mais para adiar, eu precisava ir a um hospital logo no dia seguinte.

Sou um cara de sorte considerando a realidade do país. A empresa em que trabalho possui um plano de saúde que dá direito a bons hospitais particulares. E às 13:30h daquela terça feira estava entrando na emergência do Hospital Sírio Libanês.

Atendimento completo! Como estava com dores abdominais me encaminharam para um médico do setor de cirurgia. Ele me examinou e suspeitou que fosse pedra nos rins. Achei estranho e quis confirmar, perguntei para ele se pedra nos rins poderia iniciar a dor pelas costelas!!!
Ele pensou um pouco.... "Vamos fazer uma tomografia de abdomen completa e a gente tira a dúvida."

Encurtando a história, saí de lá às 19:30 h com uma tomografia que não encontrou nada, estava um completo Adão por dentro. E o médico me receitou um relaxante muscular por 7 dias e pediu para procurar um ortopedista, porque se não era nada interno no abdomen só poderia ser algum problema muscular.

Consegui marcar o ortopedista somente para a outra sexta feira, 10 dias depois da tarde no Sírio Libanês. Chegando lá expliquei para o ortopedista o caso e ele fez um exame clínico bem parecido com o primeiro médico da semana passada. Mas ele concluiu rapidamente que o meu problema não era ortopédico, eu estava com uma infecção de Herpes Zoster, o mesmo vírus da catapora.

Ele me explicou que quem teve catapora alguma vez na vida pode ter o vírus incubado no nervo, e quando a resistência baixa por algum motivo ele pode se manifestar. Geralmente ele se manifesta com erupções na pele, mas eu não tinha isso, sentia somente uma dor forte na lateral do torax. Esse médico me explicou que esse virus fica inflama um nervo que sai da coluna em direção as costelas, e que isso realmente doia muito. Ele me indicou um clínico geral, porque ele sabia que o remédio a ser tomado era o Aciclovir mas não sabia a dosagem, porque não era um problema ortopédico e ele não tinha familiaridade suficiente para receitar com segurança.

Mas o consultório dele ficava em frente ao Hospital Samaritano. Como sou um cara de sorte, o plano de saúde da minha empresa dá direito a esse hospital também. Atravessei a rua e fui na emergência do hospital com o diagnóstico do ortopedista na mão me indicando para um clínico geral.

Novamente o atendimento de primeira, esses hospitais são muito bons mesmo! Uma doutora me atendeu e expliquei o caso para ela. Ela me examinou e confirmou o diagnóstico. Também disse que iria me receitar o Aciclovir, e com esse remédio as erupções que não tinham aparecido até agora não iriam mais sair mesmo.

Em resumo, ela me receitou Aciclovir 200 mg a cada 4 horas por 7 dias, só pulando a dose da noite. Isso dá cinco comprimidos por dia! Também me pediu para procurar um dermatologista ao final de 7 dias porque esse profissional estaria apto a verificar se ainda precisa de alguma coisa a mais. Já que esse virus geralmente causa erupções na pele, são os dermatologistas que acabam se especializando nisso.

Consegui marcar um dermatologista exatamente 7 dias depois, 17 dias depois da primeira crise de dor. Ao chegar lá contei caso para o dermatologista. Demorou um pouco mais porque a história estava ficando grande.... Importante, a dor, apesar de estar bem menor, ainda estava presente. Mas continuava sem nenhuma erupção na pele.

De cara ele olhou a receita da médica do Hospital Samaritano e soltou: "A dosagem está errada, está 4 vezes menor. Você precisa tomar 800 mg a cada 4 horas e não 200 mg!"

Ele me explicou que essa dosagem de 200 mg era para aquele herpes comum. O zoster é bem mais nervoso e precisava de uma dose maior. E ainda lamentou: "Putz, você já tomou 7 dias de dose muito pequena. Toma mais 4 dias a dose correta pelo menos. Esse virus tem ciclo de 14 dias e provavelmente já está regredindo, mesmo que não tenha causado erupção na pele." 

Antes de comprar mais comprimidos daquele remédio caro pra caramba, fui para casa, peguei a bula do remédio que já estava tomando e li cuidadosamente, com calma, para entender com qual médico a diretriz do fabricante se aproximava mais. E estava lá! Dosagem correta de 800 mg. O dermatologista tinha razão.

Mas a bula também dizia que o tratamento deveria ser de 7 dias ininterruptos e ele tinha me receitado 4 dias. Segui a bula e tomei mais 7 dias de novo. Se já achava muito 5 comprimidos por dia, passei a tomar 10 de dose dobrada.

Vamos ver se funciona agora!

Conclusões
1 - Não importa o nível do hospital que você vai. Você sempre vai depender da sorte de ser atendido por um médico que saiba identificar o seu problema e te receitar corretamente um remédio. No meu caso o dermatologista foi o quarto especialista que passei. Nunca iria procurar ele inicialmente porque não tive nenhum problema na pele. E se tivesse ido nele, será que ele seria capaz de me diagnosticar corretamente já que na minha pele não tinha nada? (Como estou no meio desse último tratamento nem posso garantir ainda que não vou precisar procurar outro especialista...)

2 - Vai tomar um remédio diferente, leia a bula! Você não está querendo saber mais do que o médico se fizer isso. Se eu tivesse feito poderia perceber facilmente a diferença de dosagem receitada com a descrita e poderia, pelo menos, ligar para tirar uma dúvida. Me economizaria 7 dias de tratamento ineficiente e alguns bons reais.