quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Porque sou contra a prova da OAB

Era uma vez um povoado chamado Bororó, onde só existiam 4 pessoas. Duas delas eram produtores de abacate e as outras duas eram consumidores desse produto. E a vida era confortável para todos.
Até que um dia chegaram mais dois consumidores de abacate em Bororó, e então a vida dos produtores passou a ser bem mais do que confortável, pois vendiam o dobro que vendiam antes.
Com esse consumo alto, não demorou para que um terceiro produtor de abacate se mudasse para Bororó. Ele tinha feito uma análise de mercado e concluiu que lá seria um bom local para iniciar esse tipo de negócio. E os dois primeiros produtores estavam conversando a respeito.
- Fiquei sabendo que um terceiro produtor vai se instalar em Bororó. Ouviu isso também?
- Ouvi e me preocupa. Como o consumidor vai saber se o abacate deste terceiro tem a mesma qualidade dos nossos? Parece que ele é um novato que nem tem muita experiência na área do plantio de abacate, provavelmente vai cobrar mais barato do que a gente e a população vai acabar comprando um produto de qualidade inferior.
- Mas se o abacate for pior que o nosso ele tem que cobrar menos mesmo!!!!
- É, mas deveria existir um mínimo que estes novos produtores deveriam atender para garantir o direito dos consumidores de não serem enganados.
- Mas será que o consumidor ao sabe diferenciar o abacate bom do ruim?
- Não com todos os detalhes necessários. Afinal o plantio de abacate é algo muito complicado para a população leiga e os produtos podem ser bastante parecidos por fora mas serem completamente diferentes por dentro.
- Mas no final, seja por conhecimento ou por experiência dos amigos, o consumidor vai saber qual é o abacate que tem um bom custo benefício. E o próprio mercado vai excluir o mal produtor.
- Pode ser, mas isso além de demorar muito, com a população em crescimento como está sempre vai ter consumidor desavisado que vai acabar comprando desse produto ruim, e estará sendo prejudicado.
- Mas pelo jeito você tem uma proposta para resolver isso. Qual é
- Poderíamos criar uma Organização dos Abacateiros de Bororó. Essa organização ditaria a qualidade mínima do abacate e tabelaria os preços mínimos.
- Entendi. Mas essa organização seria somente informativa, certo. Porque qualquer um pode seguir ou não as padronizações propostas. Não teria nenhum resultado prático se não tivesse uma forma de proibir que outros produtores vendam abacate se não estiverem filiados na organização. E não dá pra fazer isso.
- Meu caro amigo, no caso do abacate dá!! É um produto tão complexo que será fácil convencer qualquer governo de que, para garantir o direito do consumidor, é necessário uma regulação a parte pela nossa Organização.
-Entendi. Mas como a gente vai regular a qualidade desses produtores de abacate?
- A gente segura antes deles entrarem na organização. Podemos fazer uma prova que filtre os abacateiros competentes dos outros. Só os melhores passariam e os consumidores estariam seguros de que só comprariam produtos bons.
- Entendi. Mas a gente não pode ser acusado de ficar bloqueando mercado?
- Não acho que seria essa a visão do público em geral. Estamos garantindo o direito deles comprarem produto bom por um preço justo. Agora, se poucos passarem nessa prova a culpa são das instituições de ensino do plantio de abacate.
- Entendi. Mas tem certeza que não fica estranho. Quem definiria o que é preço justo, o que é qualidade boa e o nível de conhecimento para entrar?
- A nossa Organização.
- Mas não acho certo. Nós somos os que seremos privilegiados se poucos entrarem. O conflito de interesses será claro.
- Quem mais vai poder dizer o quanto os abacateiros devem saber pra entrar na Organização dos que os próprios abacateiros mais experientes? O governo não tem como entrar num assunto tão técnico como esse!!!
- Bom. Se é para ajudar o consumidor final eu to dentro!
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Cinco anos depois o Povoado de Bororó já contava com 12 consumidores e somente os dois fornecedores de abacate estavam cadastrados na Organização e aptos a vender abacate. O último ano foi até de escassez de produto porque só os dois não davam conta de tanta demanda.
Haviam 10 candidatos que tentaram entrar na organização nos últimos 4 anos e nenhum deles havia ainda conseguido. Todos estavam fazendo muito barulho na imprensa a respeito dessa organização. Eles não achavam justo, pois tinham estudado muito, sabiam produzir os abacates, mas essa prova final da organização era impossível e os impedia de trabalhar.
Mas nesse quinto ano 10% dos candidatos passaram na prova, ou seja, 01 produtor.
E não demorou minutos para que ele também começasse a defender a metodologia de provas da Organização, numa mudança clara de posição em relação a quando era estudante. Afinal, se ele passou outros também podem passar.
De tempos em tempos se pergunta porque no caso dos abacates existe uma Organização que gerencia a entrada no mercado. Será que não seria melhor para a comunidade se houvesse mais produtores de abacate com qualidade e preço variável competindo entre si?
Mas isso é logo esquecido porque este assunto de abacate é muito complexo para a população em geral. E nenhum governo tem coragem de mexer com isso. Afinal com a demanda fixa em 5 consumidores para cada produtor, a Organização dos Abacateiros se tornou uma elite de alta renda e influente no governo. Apoio que nenhum político de Bororó quer perder.